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Pe. Pedro José Martins Monteiro


Tudo começou há 50 anos, numa aldeia perdida entre montes e vales, no Reino Maravilhoso, Matela de seu nome. Foi ali que vi a luz deste mundo tão belo pela primeira vez. Ali, sem haver muito, dei os primeiros passos, aprendi a falar e a amar. Nunca me faltou carinho, amor, ternura, comida e algumas palmadas para tirar o pó da roupa. A minha creche e ATL foram a rua e os amigos. Ali fui índio, cowboy, pirata, o melhor jogador do mundo da bola! Fui tudo o que uma criança sonha ser. Brinquei com arco e flechas feitas com dedicação, mestre na fisga, sempre no bolso de trás das calças, mão certeira a atirar pedras. Caí a um poço cheio de água e a minha Mãe deu-me a vida duas vezes em poucos anos. Apanhei rãs, fui para o rio Sabor muitas vezes. Foi ali, no meio do nada, onde aprendi a juntar letras e números, onde li o primeiro de milhares de livros e aprendi o valor da casa, da família, dos amigos. Brinquei no gelo e na neve, que caía abundantemente, fiz bonecos de neve, bolas gigantes e da rua uma espécie de fortaleza para quem passava e levava bolas de neve sem saber de onde vinham. Andei de burro ou burra tantas vezes e algumas vezes experimentei como era duro o chão quando me atiravam ao chão. Andei de macho para todo o lado. Aprendi a levar o gado para o lameiro, a ceifar com uma foice, a carregar fardos, a apanhar azeitona, a vindimar, a regar a horta mais o meu mano. Fui picado por abelhas e vespas muitas vezes e fugi de cobras mais vezes ainda. Fui mordido por cães, arranhado por gatos, encontrei ninhos e fiz muitas asneiras que ficam no segredo do meu coração e do Criador que tudo sabe. Foi na taberna que já não existe que provei a minha primeira cerveja (obrigado avô António). Tive uma infância feliz, pois cresci livre como um pássaro, selvagem como um lobo, sossegado como o cordeirinho que criei mais o meu mano. O meu irmão, quando nasceu, foi o melhor presente que tive. Alguém para brincar, para chatear, para provocar. Escrevo e os olhos ficam com lágrimas, porque, nascendo longe de tudo, tive tudo para ser feliz e como fui feliz em todas as brincadeiras e aventuras que uma criança que tem o mundo diante dos olhos o soube aproveitar. E ainda hoje olho, passados mais de 40 anos, com nostalgia para as minhas pequenas mãos gravadas numa parede, mãos que viveram todas as aventuras que se podiam viver nos tempos idos nesse Reino Maravilhoso.

Aos 12 anos saí de casa, pela primeira vez, para longe da família. Como um pássaro, tive que aprender a voar sozinho. Braga foi o destino. Outra etapa na roda da vida. A minha primeira viagem sozinho, foi uma viagem de comboio de Braga para Bragança. Tinha 12 anos e nunca tinha saído do porto de abrigo que é a nossa casa. Apanhei o comboio às 6h18 da manhã na estação de Braga com destino a Bragança. Nunca tinha sequer visto um comboio quanto mais andar num. Os olhos brilhavam mais que o luar numa noite de lua cheia. Com tudo escrito num papel, onde tinha que mudar de linha, avancei para o comboio. Primeira mudança, da linha do Minho, para a linha do Douro, em Ermesinde.

Esperei pelo comboio que viajava do Porto pela linha do Douro que foi a minha companheira de aventuras, de sonhos, de deslumbramento durante três anos. Sentado nas escadas de subida para a carruagem ou pendurado fora do comboio, agarrado aos dois ferros de ajudar a subir os degraus, senti-me livre como nunca, sentado, com os pés quase a tocar nas águas do Douro ou a levar com o vento e fumo na cara, era apenas uma criança a disfrutar da vida e dum mundo até aí desconhecido. A minha mãe dizia sempre que chegava a casa com a cara negra, do fumo da máquina do comboio. No Tua, mudança para linha estreita do Tua até Bragança. Feliz é quem teve o privilégio de andar de comboio nessa maravilhosa paisagem do Reino Maravilho. Rara foi a viagem que fiz sentado no meu lugar e nas poucas que fiz cheguei a casa cheio de piolhos (que a minha avó fazia questão de ver e matar).

Braga foi onde aprendi o resto que a vida tem para ensinar. Aprendi a estudar a sério, a saber o que é a disciplina, o companheirismo, a solidariedade. Aprendi, cedo em idade, a ser crescido, a escolher os amigos e os que não serviam para amigos. Aprendi a fazer a cama (ainda hoje mal) a servir à mesa, a lavar a loiça. A jogar futsal, voleibol, ténis de mesa. A ir ao estádio pela primeira vez e ver o Benfica ao vivo, a ir ao cinema. Foi o descobrir de outro mundo para lá do Reino Maravilhoso. As saudades eram muitas, escrevia cartas a contar tudo para os pais, sempre ansioso pela resposta. As férias eram o voltar à aventura de andar de comboio e voltar para os braços de quem me deu e vida e fez tudo por mim, os pais, os avós e o pequeno mano. O voltar a Braga era sempre doloroso, mas de madrugada, lá passava o comboio no apeadeiro de Sendas, rumo a Braga e lá regressavam as aventuras. Na mente levava os conselhos, sobretudo da avó Ana e algumas notas na carteira que os avós e tios davam para gastar com os amigos. O que aprendi no seminário em Braga ficará para o resto da vida. Os formadores, os professores (não todos), os amigos que fiz, que perdi e que nunca voltei a ver, mas que marcaram para sempre a minha vida. Com eles ganhei e perdi, ri e chorei, fui cantor e ator, fui tudo e fui nada, mas nada poderá apagar esses três anos no monte do Sameiro, tantas vezes envolto numa bruma de nevoeiro que tanto me irritava.

Nestes 50 anos passei por muito e por muitos sítios. Fátima, Lisboa; Felgueiras, Santo António dos Cavaleiros, Frielas. Conheci o país de norte a sul, viajei para onde nunca imaginei viajar, a não ser em sonhos. Muito ganhei, pouco perdi, mas o que perdi foi sempre doloroso. Realizei sonhos, vivi sonhos, partilhei, dei e aprendi a receber de volta o que a vida tem de melhor: a amizade e o amor. É incrível tudo o que fazemos para esconder quem somos de facto, ao mundo. E a vida fez-me muitas vezes aprender a fazê-lo. Talvez não queiramos que os outros saibam o quanto eles significam para nós. O que tem piada, porque a vida ensinou-me que, na verdade, que faríamos tudo por eles.

Viajaríamos distâncias incríveis, arriscaríamos as nossas vidas e lutaríamos contra monstros por eles. Mas, na verdade, pode ser assustador admitir que precisamos de Pessoas para ser felizes, mesmo que isso implique, um dia, perdê-las. Muitos acham e podem ver nessa necessidade de ter pessoas na nossa vida como uma fraqueza. Afinal, existe dor maior do que perder alguém que amamos? Ou descobrir que alguém que amamos nos deixou para trás? Acho que é por isso, que muitas vezes, nestes 50 anos eu me quis esconder e proteger. E pomos uma máscara. E não é difícil descobrir o porquê! O difícil é saber que, às vezes a máscara é quem nós realmente somos. Sempre tentei viver sem máscaras, mas confesso, que nesta vida que tenho, às vezes ser quem realmente sou não é fácil e as pessoas preferem, muitas vezes, a máscara ao meu verdadeiro eu.

Mas eu prefiro o meu verdadeiro eu, mesmo que isso me traga mais problemas e dores, mas também me traz muita mais alegria e felicidade. Existe um velho ditado que diz: “o que não te mata, torna-te mais forte”. Não acredito nisso. Acho que as coisas que nos tentam matar deixam-nos tristes. A força vem das coisas boas. Da família, dos amigos, da satisfação do trabalho duro. São essas coisas que nos mantêm inteiros. São a essas coisas que temos que nos agarrar quando tudo parece estar mal. E nada é tão bom se não for partilhado e, por isso, mesmo que à distância, a vida, a fé e a alegria tem que ser partilhada com os outros, para que esta cruz seja menos pesada na vida de todos.

O tempo não pára. Às vezes gostávamos de ter o poder de o parar naqueles momentos bons e inesquecíveis que gostávamos que durassem para sempre, outras vezes gostávamos que o puxar para a frente naqueles dias em que tudo parece correr mal e em que a noite escura parece nunca mais acabar. Mas tudo tem o seu tempo debaixo do sol. Neste ciclo de 50 anos da minha vida tive tempo para tudo. Tempo para rir e muito e tempo para chorar algumas vezes, tempo para ser feliz, para tentar ser feliz e para tentar que os outros fossem felizes comigo e ao pé de mim. Tempo para conquistas e perdas, para cortar metas, atingir objetivos, cumprir promessas. Tempo para festejar, para comemorar, para celebrar, tempo para realizar sonhos e para os que ficaram por realizar.

Tempo para perder amigos, tempo para fazer novos amigos. Tempo para sentir saudades e para matar saudades. Tempo para partilhar e tempo para receber. Tempo para mudar de vida, de missão, de objetivos, tempo para caminhar e tempo para descansar. E tudo isto que fiz ou deixei por fazer, foi tudo feito à minha maneira e do meu jeito. Agradeço a Deus o dom da Vida, ao "J" que será sempre o meu guia por onde quer que ande, agradeço a quem esteve sempre ao meu lado, a quem caminhou comigo, a quem sorriu e chorou comigo, a quem mesmo longe, sempre esteve perto. Sem a vossa presença a vida não teria a mesma graça. Obrigado!!